Mercado de Crédito

R$ 361,8 bilhões: o mercado de capitais bateu recorde justamente no semestre em que o crédito levou sustos

O primeiro semestre de 2026 foi de sobressalto no crédito corporativo brasileiro — spread em alta, apetite em retração, empresas adiando captação. E, no meio disso, o mercado de capitais registrou o maior volume da série histórica da Anbima. Não é contradição: é a mesma história contada de dois lados. Quando uma porta aperta, o dinheiro procura outra. E o profissional que só conhece a primeira porta perde a operação.

30 de julho de 2026 7 min de leitura Redação Crédito360

O recorde que quase ninguém comentou

Enquanto o noticiário do semestre foi dominado por inadimplência, spread e aperto na concessão, um número passou relativamente batido: as emissões no mercado de capitais brasileiro somaram R$ 361,8 bilhões no primeiro semestre de 2026 — alta de 9,8% sobre os R$ 329,6 bilhões do mesmo período de 2025, e o maior volume já registrado na série da Anbima [Anbima, via InfoMoney, 27/07/2026].

Não foi só volume. Foram 1.513 operações, 13% a mais que um ano antes [Anbima, 1º semestre/2026]. Mais empresas, mais estruturas, mais dinheiro circulando fora do balcão bancário tradicional — no exato semestre em que o crédito bancário corporativo ficou mais caro e mais seletivo.

Quando o balcão do banco aperta, o dinheiro não evapora. Ele muda de porta — e quem conhece o mapa das portas conduz a operação.

A virada silenciosa: a renda fixa perdeu espaço

O dado mais revelador do semestre não é o total. É a composição. A renda fixa — o coração histórico do mercado de capitais brasileiro — captou R$ 288,8 bilhões, queda de 5,1%, e passou a responder por 79,8% do total, contra 92,4% um ano antes: a menor participação desde 2021 [Anbima, 1º semestre/2026].

PESO DA RENDA FIXA NO TOTAL CAPTADO 1º sem. 202592,4% 1º sem. 202679,8% menor peso desde 2021— o funding brasileiro está se diversificando
A composição virou: a renda fixa segue majoritária, mas cedeu 12,6 pontos de participação em um único ano. Fonte: Anbima, 1º semestre de 2026.

Dentro da renda fixa, o instrumento mais tradicional foi o que mais sofreu: as debêntures captaram R$ 169,8 bilhões, queda de 12,1% — o menor volume para um primeiro semestre desde 2023 — ainda que o número de operações tenha subido 3,7%, para 278 [Anbima, 1º semestre/2026]. Traduzindo: mais empresas emitiram, mas emitiram menos. Ticket menor, cautela maior.

A explicação é a mesma que aperta o crédito bancário. Com spread elevado, a companhia que pode esperar, espera — prefere adiar a captação a travar um custo alto por anos. É a decisão racional de quem tem caixa para aguardar. E é exatamente por isso que o recuo das debêntures não significou recuo do mercado.

Um sinal de saúde no meio da retração: mesmo com menos emissão nova, o giro de debêntures no mercado secundário somou R$ 494,6 bilhões, alta de 20,6% [Anbima, 1º semestre/2026]. Papel trocando de mão com liquidez, no semestre mais adverso — é o oposto de mercado travado.

O que entrou no lugar — e cresceu em três dígitos

Se a renda fixa encolheu e o total bateu recorde, alguém captou a diferença. E os números de quem captou são de outra ordem de grandeza:

VARIAÇÃO NO 1º SEMESTRE DE 2026 (VS. 2025) Ações+584% Fiagros+288% Fundos imobiliários+104% FIDCs+29% Debêntures−12%
O dinheiro trocou de instrumento: enquanto a debênture recuava, ações, Fiagros, FIIs e FIDCs absorveram a demanda. Fonte: Anbima, 1º semestre de 2026.
  • Ações: R$ 25,2 bilhões em 8 operações — alta de 583,9% sobre os R$ 3,7 bilhões de um ano antes. Só o primeiro semestre superou com folga todo o ano de 2025, que fechou em R$ 15,5 bilhões [Anbima, 1º semestre/2026];
  • Fundos imobiliários: R$ 39,5 bilhões em 182 ofertas, mais que o dobro (+103,9%);
  • Fiagros: R$ 8,3 bilhões, alta de 288,3%, em 74 operações contra 23 no ano anterior;
  • Títulos híbridos: R$ 47,8 bilhões, contra R$ 21,5 bilhões — mais que dobraram.

Dentro do bloco de ações, o dado com mais simbolismo: a estreia da Compass na B3, em 11 de maio, encerrou um jejum de quase cinco anos sem IPOs na bolsa brasileira. A oferta base movimentou R$ 2,8 bilhões, chegando a R$ 3,2 bilhões com os lotes adicionais [B3/InfoMoney, 11/05/2026]; os follow-ons responderam pelos outros R$ 22,2 bilhões do semestre [Anbima, 1º semestre/2026].

FIDC: o instrumento que mais fala com quem vive de crédito

De toda a tabela, há uma linha que merece atenção especial de quem trabalha com crédito empresarial: os FIDCs captaram R$ 53,1 bilhões, alta de 29,4%, em 559 operações — o maior número de operações entre todos os instrumentos do semestre [Anbima, 1º semestre/2026].

FIDC é, na essência, recebível virando dinheiro hoje. É a ponte entre a empresa que já vendeu e o capital que quer risco de crédito com garantia real de fluxo. Quando 559 estruturas se formam em seis meses, isso não é movimento de mercado de capitais distante do balcão: é crédito para empresa acontecendo por outro caminho — o mesmo cliente, a mesma necessidade, um instrumento diferente.

Na securitização, o quadro foi desigual: as debêntures de securitização somaram R$ 22,4 bilhões (+46,1%), enquanto os CRAs caíram 50,4%, para R$ 7,1 bilhões, e os CRIs recuaram 15,8%, para R$ 20,3 bilhões [Anbima, 1º semestre/2026]. Ou seja: mesmo dentro do mesmo bloco, a escolha do instrumento certo separou quem captou de quem ficou.

A leitura que interessa: o dinheiro não sumiu, mudou de porta

Junte as peças. O crédito bancário corporativo ficou mais caro e mais seletivo. As debêntures — a captação clássica de dívida — recuaram 12%. E, ainda assim, o semestre foi recorde, com mais operações, mercado secundário líquido e instrumentos alternativos crescendo em três dígitos.

Há também uma mudança em quem coloca o dinheiro. Nos instrumentos híbridos, as pessoas físicas mais que dobraram a subscrição: de R$ 9,7 bilhões para R$ 20,7 bilhões, embora sua fatia relativa tenha cedido de 45% para 43,4%. E os fundos de investimento saltaram de R$ 6 bilhões para R$ 18,9 bilhões, elevando a participação de 26,8% em 2024 para 39,6% [Anbima, 1º semestre/2026]. O capital institucional voltou com força ao mercado primário — e o investidor pessoa física não saiu: cresceu junto.

Um mercado que bate recorde no semestre mais adverso não está reagindo ao susto. Está mostrando que aprendeu a ter mais de um caminho.

O que o profissional de crédito faz com isso — na prática

Para quem vive de crédito, esse semestre carrega uma mensagem incômoda e valiosa: o cliente que ouviu "não" no banco não parou de buscar dinheiro. Ele foi captar em outro lugar — e alguém estruturou aquela operação. O roteiro de quem quer estar desse lado:

  1. Ampliar o vocabulário de instrumentos. Debênture, FIDC, CRI, CRA, nota comercial e fundo não são assunto de mesa de investimento: são formas de a empresa levantar capital. Quem só oferece linha bancária tem uma resposta para cada cliente; quem conhece o mapa tem várias.
  2. Ler o custo, não só a aprovação. A queda das debêntures mostra empresas escolhendo esperar em vez de travar spread alto. Saber quando recomendar aguardar — e quando travar — é o que separa o assessor do vendedor de operação.
  3. Olhar o recebível como ativo. Com 559 operações de FIDC no semestre, o recebível deixou de ser detalhe operacional e virou fonte de funding. Cliente com carteira pulverizada e histórico de pagamento tem mais caminhos do que imagina.
  4. Enquadrar antes de prometer. Nem toda empresa acessa mercado de capitais — porte, governança, previsibilidade de fluxo e documentação decidem. Diagnóstico primeiro; proposta depois.

Importante: as operações citadas envolvem estruturação, custos e requisitos próprios, e estão sujeitas à análise das instituições envolvidas. Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de investimento.

O mercado abriu portas novas. A estrutura decide quem atravessa.

Na Crédito360, o profissional opera com diagnóstico por inteligência artificial — 98% de aprovação de crédito nas operações conduzidas —, mesa de operação, rede com mais de 70 instituições financeiras e 23 serviços especializados. Mais de R$ 1 bilhão em crédito aprovado na trajetória do ecossistema.

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Fontes desta análise

  • Anbima — dados de emissões do mercado de capitais no 1º semestre de 2026 (volume total, número de operações, composição por instrumento, mercado secundário e perfil de investidores);
  • InfoMoney — "Mercado de capitais bate recorde no 1º semestre apesar de 'sustos' no crédito", reportagem de Leonardo Guimarães publicada em 27 de julho de 2026, que divulgou e analisou os dados da Anbima aqui reorganizados;
  • B3 — oferta inicial de ações da Compass, realizada em maio de 2026.
Redação Crédito360 · análise de 30 de julho de 2026

Conteúdo produzido pela equipe editorial da Crédito360 a partir de dados públicos da Anbima divulgados pelo InfoMoney. Todos os números são citados com fonte e período ao longo do texto.